Aqueles que acompanham o blog a mais tempo sabem da campanha que faço pela queda das bandas tarifárias. Desde a origem desse blog, esse tema sempre me incomodou, a tal ponto de várias vezes ter postado opções de associar passagens a fim de fugir das bandas tarifárias nacionais.
Com muita alegria
recebi a notícia da consulta pública realizada pela ANAC a fim de eliminar as bandas. Consulta
realizada e finalizada, nada mais constava no site da ANAC. Durante a
última matéria que fiz para a Viagem e Turismo, procurei insistentemente informações sobre a entrada em vigor da resolução que aumentaria os descontos permitidos sobre as tarifas cheias. Só consegui a informação extra oficial de que a mesma aguardava uma reunião do colegiado da ANAC que na época passava por um processo de renovação. Quis ainda informações sobre a
superpromoção da Gol para Lima no Peru que conseguiu superar os limites impostos pela legislação vigente. Fiquei sem respostas da Gol, LAN e da ANAC. O que era para ser um processo transparente não se mostrou tão transparente assim.
Mas hoje, foi finalmente anunciada pela ANAC a publicação no dia 01 de março da resolução que implanta uma redução gradual até a eliminação das bandas tarifárias para os vôos dentro da América do Sul. Parece ser parte de uma decisão política de mostrar serviço a sociedade que
inclui uma futura visita do Ministro da Defesa, Nelson Jobim, ao congresso tentar agilizar as normas que aumentam as taxas de estacionamento de aeronaves e de um plano de ressarcimento aos consumidores lesados por atrasos e cancelamentos.
Mas o que diz a resolução? Ela aumenta os descontos possíveis de serem aplicados sobre as tarifas cheias (sugeridas pela IATA , organização não governamental criada pelas cia aéreas para normatizá-las e defender seus direitos) apresentadas junto com a resolução. A partir de 01 de março será possível aumentar o desconto atual de 30% para 50%. Já no dia 01 de junho será possível realizar descontos de 80%. Finalmente em 01 de setembro de 2008 (data histórica) passa a vigorar a liberdade tarifária nessas rotas.
Veja nos quadros abaixo o impacto possível da resolução:


Mas o que podermos esperar? Queda de preços imediata? Concorrência? Vitória do consumidor? Fazer exercícios de futurologia sempre implica em chances de grandes erros, mas mesmo não sendo um experto em mercado vou pintar 3 cenários possíveis.
Primeiro cenário: Nossas cias e as demais cias sul-americanas acostumadas com os lucros gerados pelas altas tarifas atualmente em curso, podem simplesmente aplicar uns descontinhos para ficar bem na foto e como não há realmente uma concorrência na maioria das rotas dentro da América do Sul, fazerem um acordo de cavalheiros e manter o mercado e suas tarifas sobre controle. Se não aparecer ninguém interessado em mudar o atual cenário, não haverá mudanças espontâneas das demais cias. Talvez esse seria o cenário mas provável até a pouco tempo, mas as mudanças recentes ocorridas no mercado brasileiro (nossas cias estão entre as mais fortes do continente) podem fazer com que mudanças ocorram.
Segundo cenário: Nossas cias ainda impactadas pelo caos aéreo e baixas ocupações em algumas rotas, podem optar por reduzir as margens de lucro e aumentar a ocupação das aeronaves, permitindo assim que algumas rotas se tornem financeiramente viáveis e impedindo que sejam canceladas, como ocorreu com os vôos diretos de São Paulo para Lima e Santiago cancelados pela Gol. Como resposta, as demais cias entrariam no jogo a fim de não perder mercado. Diante de uma Gol enfraquecida (mas longe de ser frágil) tendo que sustentar a deficitária Varig e suas poucas rotas internacionais, da TAM com uma nova proposta e dona do lado brasileiro das rotas Brasil/Europa e da sombra cada vez maior de uma subsidiária da JetBlue se aproximando (inclusive o Ministro Jobim
já disse que ela tem tudo para ser a terceira força nacional) a situação atual pode mudar. A Gol pode optar realmente por se tornar uma cia
Low Fare (baixas tarifas) coisa que ela deixou de ser a muito tempo, justificando a quase ausência de serviço de bordo e outros mimos a fim de se fortalecer diante da chegada de uma possível nova concorrente que tem um histórico agressivo nos EUA. Com isso, ela iniciaria uma pressão para baixo nas tarifas das rotas internacionais operada por ela, deixando a Varig realmente para concorrer em serviço, qualidade e preços com a TAM. Essa última teria que redefinir qual seria sua concorrente e qual caminho perseguir no futuro, que parece ser de uma cia convencional dentro de uma grande aliança com algumas rotas nacionais com serviço reduzido e rotas internacionais com serviço completo e programa de milhagem. De novo, as decisões das nossas cias poderão ter impacto nas concorrentes internacionais gerando uma queda de preço segundo a proposta de cada cia aérea.
Terceiro cenário: Diante da possibilidade de ampliar mercado (LAN, Aerosur, Pluna, TACA entre outras) ou de aumentar a ocupação de vôos que tem como escala o Brasil, como por exemplo o vôo da British entre Londres e Buenos Aires, as cias internacionais poderiam dar o pontapé inicial na concorrência tarifária levando as nossas cias a entrar no jogo. Não podemos esquecer que a entrada da Gol e TAM em domínios da LAN, Aerolineas, Pluna e TACA levou concorrência e queda de preços principalmente nos mercados onde a liberdade tarifária já existe. Pode ser a chance de revanche. Para melhorar o cenário seria interessante uma política de céus abertos dentro da América do Sul na qual qualquer cia poderia operar a rota que lhe interessasse devendo apenas limitar sua operação a existência de vagas nos aeroportos. Talvez assim um vôo saindo do Rio, Belo Horizonte ou Salvador para o Chile ou Argentina, por exemplo, não precisaria custar tão mais que um que parte de São Paulo.
Não me importa qual cenário irá se confirmar ou se um outro poderá acontecer, torço (porque no Brasil agente além de ver as normas temos que torcer para que elas tenham impacto e interesse dos políticos para que realmente surtam efeitos) para que o consumidor visualize um futuro melhor. Nem que seja para termos passagens com preços dentro da realidade internacional nas promoções de final de semana e preços fora da realidade durante os demais dias como ocorre com as tarifas nacionais.
Aproveito para agradecer a todos os leitores do blog que me enviaram a notícia do início dos fins das bandas, em especial ao sempre alerta Paulo Sérgio, Gisa, Alex, Márcio e a Ludmila Vilar que sofreu comigo para tentar tirar informações da ANAC.